Ontem, falando sobre adiar recompensas aqui, foquei bastante no potencial que doces exercem sobre mim, no quesito recompensa imediata. Eu inclusive, após alguns dias de esforço, fui ao mercado aqui do lado do meu trabalho e escolhi um pacotinho de balas de gelatina, atualmente minhas preferidas.
Sempre passo pelo auto atendimento, porém ontem, todos estavam ocupados e eu fui com um ser humano, naquele caixa rápido. Todos os itens passaram, mas o pacote de balinhas dava “item inexistente”, todas as vezes que o caixa tentava fazer o leitor funcionar.
Aproveitei a oportunidade de não consumir as balinhas e fui embora.
Hoje pela manhã, lendo O Poder dos Quietos, de Susan Cain, ela está falando sobre crianças introvertidas na fase escolar, e em como, para muitas delas, sobreviver à fase escolar é realmente um desafio. E isso me arremessou a um período antigo, antigo demais, da minha fase escolar.
Eu estudei em escolas particulares, e durante toda a minha infância, fui aprofundando essa coisa de amar muito as comidas industrializadas e ultraprocessadas – que por sinal, naquele período, não eram consideradas ruins.
Em um dos vários colégios, aquele que permaneci mais tempo quando criança, eu tinha alguns relacionamentos difíceis com coleguinhas, e nem sempre estávamos em bons termos. Eventualmente, ficávamos sem nos falar, e eu não tinha controle sobre isso.
No último ano que estudei naquele colégio, eu havia desenvolvido um costume específico: eu ia a pé até o trabalho da minha mãe, e no caminho, havia uma mercearia, onde minha família tinha uma conta aberta, e eu era autorizada a pendurar coisas lá.
Esporadicamente, eu comprava algo para mim, geralmente um pacotinho de Mentos, ou algo equivalente. Era algo que eu fazia poucas vezes ao mês, e não chamava a atenção da moça da mercearia, nem da minha mãe, ao acertar as contas.
Até que, por razões nebulosas, eu passei a ir quase que diariamente comprar o meu doce – mesmo sem aquele indulto de comprar outro item sob encomenda (geralmente uma carteira de cigarros, afinal, década de 90). E ao final de algumas semanas, a moça achou que eu havia comprado coisas demais, e me pediu para ir conversar com minha mãe.
Eu tentei evitar essa conversa, mas exatamente como em qualquer final de novela, bem naquele dia, minha mãe pediu algo da mercearia – e aí a moça me avisou novamente, que eu deveria falar sobre a conta devida. Que eu apresentei naquele dia, e foi um grande, imenso caos na minha vida.
Não faço ideia do valor, mas sem dúvida era enorme (proporcionalmente) e demonstrava a minha falta de controle. Foi repreensão de todos os lados, e que me recorde, eu parei de usar aquele “recurso” da mercearia para comprar as coisinhas que queria consumir.
O que ninguém perguntou, e eu mesma não sabia até hoje pela manhã, era o que, afinal, eu queria com aquelas compras de docinhos e balinhas?
E hoje eu me dei conta, que o que eu queria MESMO, era uma recompensa imediata e reconfortante à sensação de isolamento crescente que vinha tendo naquele ano. Além do isolamento das coleguinhas, haviam problemas de pano de fundo como meu desempenho escolar sofrível, a dificuldade total em prestar atenção, a vontade nenhuma de participar das atividades.
Tudo isso podia ser remediado com um Mentos cor de rosa, talvez um Bubbaloo.
Anos haveriam de se passar, o foco da minha recompensa se alternando entre os Trident, a Pringles, Ruffles, e outros industrializados. Hoje eles são os ursinhos de gelatina, que, ironicamente, reservo para consumir somente nas noites de aula presencial na faculdade – de Nutrição, o que deve aumentar a ironia.
Aquele episódio marcou também uma ideia bastante reforçada na minha própria autoimagem, de que eu não era uma pessoa ética, correta e honesta – afinal, como me foi diversas vezes afirmado em alto e bom som, aquilo que eu havia comprado sem autorização era roubo. Eu estava com 12 anos e assimilei essa culpa com muita intensidade, embora não tenha falado sobre isso de maneira consciente em nenhum outro momento da minha vida.
Talvez por isso, sempre quando tomo conhecimento de alguma situação em que a pessoa cometeu um erro (podendo até ser um crime), consigo me identificar com aquele ser humano falho de uma maneira muito próxima. Sempre penso que poderia ser eu, e que não estou tão longe assim de “pisar fora da linha”.
Não digo isso como alguém prestes a perder o réu primário, mas como alguém que se enxerga como muito, muito falho. E isso, curiosamente, tornou-se uma virtude, que me humaniza na hora de prestar atendimento profissional.
Espero que até o momento em que me torne Nutricionista, toda essa relação com a recompensa doce também seja um caminho que facilite o meu processo de atender e orientar as pessoas que virão até mim. Pois são décadas de um mecanismo profundamente reforçado, e que há pouquíssimos dias, foi jogado luz nele.
Falar sobre isso é mais uma etapa do processo, que exige coragem, eventualmente causa algumas dores, mas do tipo que arde, e depois cicatriza.
