Recentemente, dei mais ênfase ao meu espaço no substack do que esse blog aqui, que sinceramente, horas eu penso no porquê de ainda manter – e a resposta é comodidade. Não tenho mais aquela ânsia de escrever por aqui, muito embora esse tipo de comunicação sempre me fascinou.
De todo modo, deixo aquela newsletter lá, para falar bem especificamente do meu trabalho como terapeuta ayurveda, e agora, acadêmica de Nutrição. Ah, calma, tem mais: instrutora de yoga,que começou a formação há três meses.
Com tudo isso acontecendo, mais o meu trabalho regular na repartição, os meus freelas de copywriter, é natural que pouco me tenha restado para escrever. Só que isso é uma meia verdade.
Eu ainda sinto uma paralisia que antes, a arrogância cheia de certezas não me deixava ver. Sempre penso, antes de sair aconselhando alguém sobre qualquer tema, que eu não sou ninguém para dizer que aquela pessoa pode ou não incorporar mais um hábito, mais uma coisa na vida dela.
Me sinto constantemente uma fraude quando penso em falar de comida, cozinhar, quando 25% da população no nosso país está em insegurança alimentar. Atendo as pessoas para falar de ayurveda, e me pego pensando se tem cabimento eu querer que ela quadricule ainda mais uma rotina já tão comprimida por obrigações.
Só que ao mesmo tempo, não posso deixar de pensar: se não isso, o que? Ela vai para mais uma sessão de TikTok vendo os outros arrumar gavetas e marmitas? Ela vai maratonar true crime enquanto poderia colorir um livrinho com os filhos?
E nesse contexto em que a pessoa paga para ouvir minha opinião sobre o seu caso, e o que ela poderia vir a promover de mudanças, eu me sinto menos insegura. O que já é bem diferente quando o assunto é redes sociais, por exemplo.
Em um contexto de fome, catástrofes naturais e guerras, não é raro que eu pense ser muito fútil falar de assuntos cotidianos como almoço, livro, produtinho de beleza. Ao mesmo tempo, eu mesma propositalmente procuro pessoas que possam me oferecer algum respiro nos dias mais pesados do lado de fora.
E aí, vem a pergunta do título: por que as redes sociais é onde a gente vai para o recreio, não para o serviço. A gente quer se entreter, e caso decida se informar, de uma maneira mais tranquila, leve. E eu vejo que quero muito mais levar isso, pro recreio, do que a torta de climão.
Por mais que pareça engajamento, repostar um bom texto, uma boa chamada sobre a causa, é irrisório quando pensamos em termos de transformação da realidade. Por outro lado, você não disputa a consciência das pessoas se não oferecer um outro ponto de vista.
Durante anos da minha vida, “disputar a consciência das pessoas” era uma tarefa para a qual eu me dedicava diariamente. Com ardor e disciplina, que não levei para mais nada na vida. Hoje, concretamente, eu não sei mais o que fazer a esse respeito.
E permaneço um pouco deslocada no recreio.
