Eu sou patologicamente educada

Tenho muito a dizer, mas vamos com calma. Começando por essa fala icônica de Carrie Bradshaw, em And Just Like That, há uma semana atrás. Ela é convidada para um evento relacionado a scotch, bebida para a qual ela não liga nem um pouco, por uma pessoa com quem ela nem quer sair naquele dia. E aí, num saudosismo clássico, ela liga para as amigas e se aconselha. E quando questionada sobre o porquê ter aceitado o convite, em primeiro lugar, vem essa pérola que já se tornou um clássico:

– I am patologically polite.

E aí o episódio (e o diálogo) seguem adiante, até que ela consiga se desvencilhar desse convite que aceitou sem nem pensar, só no reflexo educado. Quanta coisa assim eu já fiz na minha vida, gente.

Tanta que em algum ponto, até parei de me relacionar (no geral), me abrir para novas possibilidades de conhecer pessoas e me divertir, porque majoritariamente, me sentia presa numa armadilha terrível em que nada me interessava no lugar onde havia ido parar. A pandemia ajudou demais nesse ponto, inclusive.

Não é que eu pense a respeito, eu simplesmente ajo por reflexo e digo sim, para as mais disparatadas propostas. E há anos eu trabalho em terapia a ideia de que você pode construir um meio-termo entre ser patologicamente educada, como Carrie, ou uma excêntrica sem educação, como Sheldon Cooper (já que estamos usando as séries como metáforas). Se eu já construí esse meio-termo? Acho que não, mas o caminho está aí.

O que acaba acontecendo é que, por não ser boa em impor limites, eu me preparo, respiro fundo e mergulho numa experiência completa por consideração à pessoa que me chamou. E aí eu sumo da vida dela por meses, até recuperar a bateria social de ter sido sugada por mais tempo, energia e bateria social que eu tinha para dispor.

Tem gente de quem eu estou fugindo literalmente há anos, e não é por não ter algum afeto pela pessoa, é só pelo cansaço que elas me dão. A pessoa é o equivalente social de ir ao MCDonald’s – você até gosta no começo, cheira atrativo e parece que vai ser bom como era antigamente, mas o efeito depois é mal-estar.

Como é que você supera uma patologia deste tipo? Confesso ainda não saber a resposta, mas talvez a ideia de voltar atrás no que você programou, seja um caminho. Se desculpar, educadamente, e explicar que você aceitou o convite por impulso.

Outra opção é quando você diz não. Ponto. Sem vírgula, justificativa ou a ideia de que o não é uma impossibilidade externa (tipo já ter outro compromisso), e não o fato de que você não quer. Eu sempre penso que isso é desconcertante e passo dias amargurada, em caso de dizer não.

Sexta-feira, com a ajuda da minha melhor amiga, encerrei uma parceria profissional que não fazia sentido, e ensaiamos juntas como eu faria aquele texto (afinal, ao vivo eu jamais teria a coragem). Bem, só no processo da construção do texto eu já aprendi alguns macetes, que falam dessa coisa de explicar tudo, quando você pode simplesmente não explicar nada. Meu medo eram as perguntas que viriam depois: como eu iria lidar?

Ela me deu a dica: não responda, só continue encerrando o assunto. Diga evasivas como “vou guardar nossos momentos no meu coração”. No dia seguinte, foi mais ou menos assim que eu respondi (quando de fato o meu “adeus” gerou perguntas).

Eu consegui, assessorada por ela. E até que nem estou sentindo grandes remorsos – o que neste caso talvez se deva ao fato de eu não estar lamentando muito a quebra do vínculo. Então não posso afirmar que minha polidez patológica esteja em remissão.

Mas é uma meta, sabem?

A vida é muito curta pra gente aceitar o que não quer.

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